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Rio de Janeiro, RJ, Brazil

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A dor de amar
Alguém tão pura
Tão bela, tão forte
Tão certa e segura

O brilho nos olhos
De alguém que me ama
Beijos gentis
Deitados na cama

Amor tão mágico
Me invade com leveza
Incapaz de regar
Minha eterna tristeza

Cada vez que me admira
Mil outras que não
Cada erro que cometo
Mil anos sem perdão

O perdão não vem
Onde o amor não permeia
No espelho que olho
O reflexo não me aceita

A sombra da culpa
Consome a energia
Engole a verdade
Destrói a magia

Abraço
Prisão
Liberdade
Solidão
Conselho
Rejeição
Morte
Solução


Sobre o poema

Esse poema começou no meio, surgiu como um flash de inspiração em um momento improvável. Super cotidiano, mundano, ordinário. Eu e minha esposa fazemos aula de personal trainer juntos.

Voltando de uma dessas aulas em um dia no qual já me encontrava irritado desde cedo (místicos culparão o Sol, a lua, o Vênus, o Mercúrio e a Ceres todos em áries), estávamos andando de bicicleta por uma rua movimentada de Ipanema, com um trânsito cheio, parado e fora do normal para o horário. Eu indo na frente e minha esposa seguindo, íamos passar em uma pet shop para comprar um remédio para nossas cachorrinhas que estavam doentes.

Logo após uma esquina na qual ela achou que viraríamos, fiquei virando para trás para ver se ela seguiu reto como eu. Não queria andar de bicicleta na calçada nem pegar uma contra mão na avenida principal do bairro. Distraído com isso, acabei esbarrando com o quidão em um táxi parado no trânsito. Instintivamente, freei o mais rápido que pude, minha roda traseira saindo do chão e saltei da bicicleta urgentemente. Passei por minha esposa que parou sem entender direito. Me aproximei do táxi pedindo desculpas como um bom carioca "Perdão, irmão, desculpa mesmo, danificou o espelho?". Vendo que não, respirei fiquei aliviado e segui meu caminho, vendo que o motorista que tinha me recebido com uma cara de "Porra, cara, que isso?", se despedia com uma cara de "Foda, hein? Mas ok...". Não trocamos palavras fora as minhas, ele parecia estressado, eu estava estressado, me considero sortudo por ter ficado só nisso, sucesso.

Segui adiante com minha esposa e, ao passar pela esquina seguinte, ela gritou "Amor, a gente não vai virar?", enquanto reduzia a velocidade. Me irritei, parei a bike e desci, deixando ela cair pro lado na calçada enquanto esperava Aline me alcançar. Não percebi que não tinha explicado anteriormente o caminho que faria e respondi grosseiramente "Amor, não quero pegar contramão, mas se você tá incomodada pode ir na frente" ou coisa parecida. Ela ficou obviamente incomodada, parou e falou que eu deveria ir na frente e — segundos depois — anunciou que ia para casa enquanto eu passava na pet shop. Claro, fazia todo sentido, nem me dei o trabalho de responder, só fiz um 👍 com a mão sem mesmo virar e seguimos nossos caminhos. Não teve despedida nem beijo, o que sempre fazemos.

Fui para a loja com o gosto amargo da minha própria amargura na boca. Em meu processo de autocrítica (comum demais, isso é outra questão para outro momento) refleti. "A cada vez que ela me admira, eu arranjo motivos para ela não gostar de mim, e a cada erro desses que cometo, eu me julgo por uma eternidade.". A culpa é muito presente na minha vida, sempre foi e trato muito dela na terapia, tentando não me julgar e apenas lidar com a vida do jeito que ela é, no presente, não no tempo que não foi e que poderia ter sido.

Como a minha amada esposa foi o motivo dessa reflexão, a primeira parte do poema tem ela como musa, chegando ao verso origem com um toque de contraste: a leveza dela e a minha tristeza. Já ouvi de outras pessoas que me conheceram até em momentos felizes em que eu me encontrava de bom humor, que me acharam uma pessoa triste. Eu tenho uma carga muito grande dentro de mim, que resulta em uma seriedade desproporcional com a vida. Tento me levar para o presente mais leve, mas é como se a tristeza estivesse amarrada em uma âncora que me traz a seriedade, a culpa, o controle, as defesas.

A segunda parte do poema se inspirou em um momento em que eu não sabia lidar com nada disso. Antes da terapia, antes da minha filha, antes de muitos dogs, da minha esposa, da minha carreira. Um tempo de breu total em que eu navegava cego pelo mar da vida, sem bússola, sem leme, sem vela, deixando a maré, o vento e as ondas me jogarem de um lado para o outro, contra pedras e mares calmos, contra tempestades e céus limpos oportunos. As questões da segunda parte estão todas em mim, elas fazem parte do meu dia-a-dia, das minhas frustrações, medos e inseguranças. A insegurança e falta de auto estima aparecerem, assim como a culpa e por fim quase uma lista de deturpações que minha cabeça e coração já fizeram ao longo da vida: os relacionamentos (amorosos ou não) que eu tratei como prisões; a liberdade que eu encontrava na solidão; os conselhos que ouvia mas que processava como rejeições e críticas; a morte como solução única, inegável e inexorável para o fim do sofrimento.

Hoje não enxergo a morte como solução ou, ao menos, não a almejo mais. Os anos de terapia e de pessoas incríveis me aturando e me dando amor conseguiram, aos poucos, botar na minha cabeça dura, careca e oval, que a vida é uma só e que eu tenho que aproveitá-la o máximo possível, viver o presente e deixar a culpa afundar sozinha no fundo do mar.

•:  Ricardo Cardoso