Uma pequena homenagem de coração aberto à minha esposa
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Essa não é uma história de origem. Sequer é uma história. Os nossos apelidos (certamente precoces) no nosso namoro foram "a mulher mais especial do mundo" e "o homem mais maravilhoso do mundo". Precoces porque começamos a usá-los muito antes de convivermos tanto e descobrirmos nossos pequenos e grandes defeitos, antes de vermos nossas cicatrizes e dar espaço para as inseguranças ocasionalmente mostrarem as caras. Mas de forma alguma o apelido está incorreto.
Quando criança, sempre me apaixonei fácil e rápido. Praticamente todo ano eu me apaixonava por uma menina diferente. Algumas paixões foram fortes o suficiente para durar mais de um ano, mas dois foi o limite. Como criança eu lutava para lidar com o contrangimento desses primeiros afetos ao mesmo tempo em que construía meu ego e montava minha auto-estima. Aos doze anos, com a perda de minha mãe, esse castelinho mal montado desabou e me tornei um adolescente muito inseguro. Ou melhor, minha segurança estava nos esportes e na minha inteligência, sobre as quais outras pessoas apresentavam validações e eu conseguia provas concentras do meu sucesso. Fazer pontos no vôlei, tirar notas altas, tudo isso se tornou incontestável ao meu ego e minha auto-estima para essas questões ficou bem.
O resultado foi que continuei me apaixonando e nunca vivendo essas paixões. Dos 15 aos 35 anos tive três relacionamentos. Me apaixonei e amei todas essas pessoas, mas a paixão sempre veio após beijo, sexo, intimidade. E não tem problema também, porque eu acho que não há regras no amor. Mas depois desse tempo todo, 20 anos sem me sentir apaixonado por alguém que eu não tinha contato físico ainda, eu não achei que fosse mais possível. Achei que talvez fosse simplesmente um sentimento infantil ou algo que eu tivesse perdido.
Eu reconheci que Aline era uma pessoa especial muito rápido, quando conversávamos sobre família e ela apresentou coisas e compartilhou histórias que não condiziam com sua idade. Aos 30 anos ela já tinha ideias muito avançadas e maduras sobre criação de filhos, família, amizade. Acho que pela primeira vez na vida, quando percebi que estava apaixonado, vi que me apaixonei por uma pessoa em que eu não via nada peculiar ou estranha.
Como uma pessoa emocionalmente danificada, eu sempre me atraí por pessoas que tinham cicatrizes ou marcas "visíveis". Não literalmente, mas pessoas que tinham a sexualidade inexplorada, problemas de saúde, passados difíceis, que eram fechadas de alguma forma. Todos nós temos isso, eu sei, mas de certa forma isso era um fator que me atraía e me fazia sentir seguro, talvez porque eu achasse que só merecesse situações difíceis ou porque me sentisse mais familiar.
Mas com ela não foi assim. Por mais que hoje eu conheça seu passado, cicatrizes, inseguranças, medos, problemas, não vi nada disso antes de estarmos juntos de verdade. Quando a gente se apaixona, é difícil ver defeitos. Nela eu consegui ver defeitos sem ver a peculiaridade, me apaixonei por ela como um todo sem ter um mistério para resolver, apenas com uma história para viver e contar.
Aline é uma mulher extremamente inteligente, sagaz, talentosa. Ela sabe desenhar, pintar, cantar e compor. É uma incrível parceira na vida, excelente oponente (ou parceira) nos jogos de tabuleiro. Gosta de ler, ver filmes e séries, e até ficou adepta de alguns jogos de videogame depois que a apresentei. Trabalhando ela é uma força da natureza, move todas as peças que precisa mover para fazer acontecer. Ao mesmo tempo que pintamos nosso relacionamento juntos, espero que um dia ela veja nossa história como a melhor parte da vida dela, assim como eu vejo a minha.
Estamos juntos há um ano e sete meses, casamos pouco após nosso primeiro ano completo. Apesar de todas as minhas lutas internas e inseguranças, me sinto feliz, vivendo uma vida gostosa e menos solitária. Me sinto respeitado, amado, ouvido, bem acompanhado e tento sempre retribuir o favor apesar de, por muitas vezes, falhar. Também já tenho idade e maturidade para saber que isso faz parte, que ela erra, eu erro, a gente magoa um ao outro eventualmente com coisas bobas. O importante é conseguirmos tentar dialogar sempre, olhar para o futuro juntos e continuar construindo nosso pequeno conto de fadas.