... diária de uma pessoa emocionalmente difícil
Copied to clipboard
Durante a terapia muitos problemas sobre os quais eu converso têm raízes profundas, intermináveis e grossas. Raízes como de árvores centenárias que não tem mais para onde crescer. Diferentemente de plantas que têm suas raízes espalhando e abraçando o solo, essas raízes têm pontos de convergência. Inflexões das quais outras raízes parecem brotar, como se a planta tivesse nascido dali.
É difícil esquecer que por mais pontos de convergência e profunda seja essa raiz, esse ponto não faz a planta, apenas faz parte dela.
Viver é muita luta. Quando suas raízes são organizadas, espalhadas, grossas, sua base é estável, seus problemas aparecem mais na superfície e a luta é mais leve. Quando suas raízes são tortas, concentradas, finas, sua luta é dura, qualquer vento traz um desequilíbrio.
Essa analogia serve para várias partes da nossa vida como finanças, emoções, saúde. Muita gente provavelmente consegue encaixar sua vida nessas árvores. A minha foi financeiramente estável e com saúde física, mas o emocional totalmente bagunçado. Às vezes coisas minúsculas me desequilibram, minha árvore se entorta e contorce. Muitas vezes pára torta mesmo e é necessário um esforço sobre-humano para reerguê-la.
Recentemente fiz uma viagem incrível com pessoas incríveis. Passamos quatro dias em Teresópolis em um curso muito especial. No segundo dia, teve uma festinha com música ao vivo, pizza e drinks. Demorei mais de 30min para conseguir subir pra festa, porque não conseguia me sentir bem, enquanto minha esposa simplesmente se encaixou de imediato na rodinha de conversa que me parecia mais interessante. Eu travei. Desci, voltei pro quarto, chorei, ouvi música, tentei subir novamente. Peguei uma cerveja, olhei em volta, desci, me escondi perto da saída da casa, pensando em ir dar uma volta pela cidade e declarar o fim da noite ali mesmo. Reconheci esse comportamento sem entender muito bem o que era ou porque o sentia. Só compreendi que tinha que tentar dar uma volta por cima e superá-lo. Depois de um tempo, respirei fundo, tentei subir novamente. Me encaixei na roda de conversa que minha esposa estava. Sem aviso ou maldade uma das primeiras coisas que ela fala é "poxa, amor, perdeu a conversa boa" e quase que me encolho de novo, mas resisti.
Festa vem, festa vai, nos divertimos bastante, dançamos, rimos, jogamos ping-pong, sinuca, jacuzzi, chegamos perto da hora que eu já sabia que minha esposa quereria se recolher. Começou a me dar sinais e falar até explicitamente que queria ir para cama. Eu quero também, ficar a sós com ela, beijar, transar, ficar juntinho. Quando estamos ao lado da escada, vemos que dois amigos estão dançando. Ela fica olhando e fala "caraca, olha isso, hipnotizante". Eu me animo e penso que quero me divertir assim também, especialmente se for com ela. Sabendo que minha esposa dança muito bem, é difícil para mim dançar com ela sem me sentir incapaz, pois me cobro muito, mas a dança que está rolando é um tipo que eu até consigo acompanhar, tem mais improviso e é mais solta, sem regras. Pergunto "isso eu sei, só não tão bem, quer dançar comigo?", ela responde "não, tô só hipnotizada". Um pouquinho ferido eu falo "ok, vou ao banheiro e a gente desce". Quando volto ela fala, "peraí que eu vou dançar com ela". Me sinto completamente massacrado, como se tivesse puxado meu tapete e pisado em mim. Desço, bem triste, bem puto, magoado. Depois de um tempo no nosso quarto, vejo que ela pode estar me procurando e não quero que pense que estou descontando nela ou punindo ela pelo que sinto (uma outra tendência de comportamento que tenho, especialmente comigo mesmo). Subindo, a encontro na escada, ela pergunta onde eu estava e fala "poxa, crente que eu tava arrasando, dancei para você". Mais pisado, mais magoado, mais tudo. No final das contas ela nem tinha me escutado, simplesmente estava vendo nossos amigos dançando e não ouviu uma palavra do que eu disse. Essa noite foi difícil, tivemos uma conversa longa, expliquei tudo que passei naquela noite dentro de mim e ela escutou. Também falou coisas que precisavam ser ditas. Dormimos tarde, foi necessário.
Esse episódio até hoje me machuca um pouco. Posteriormente ela falou para essa nossa amiga "nossa, não acredito que não gravaram a gente dançando, foi tão bom". Sempre me sinto magoado, volto naquele momento. Quando contei sobre o ocorrido na terapia, voltei para casa péssimo, sentia que tinha acabado de reviver tudo aquilo. A principal convergência de minhas raízes veio com a perda de minha mãe quando criança. Além de diversos outros problemas, é um nó que impede que minha árvore se apoie em outras. Tento me cercar de pessoas incríveis e ao mesmo tempo manter uma distância, como se pudesse perdê-las a qualquer instante.
O desafio de crescer uma árvore com raízes fracas me faz balançar muito e sinto que alterno minha vida entre poucos momentos de felicidade acompanhado, muitos momentos tensos de tristeza ou raiva acompanhado e (hoje em dia) poucos de momentos de solidão em que eu só existo. Nesses momentos de solidão, não vejo as outras árvores, suas raízes fortes, seus balanços seguros, me sinto mais simples, mais eu, mais livre, menos problemático. Mas não são vivências, são momentos de existência.
Daqui do alto da terra, vendo minhas raízes tortas e entrelaçadas entrando no chão, tento buscar o conhecimento que preciso para desatar os nós, reduzir as convergências e me sentir um pouco menos como produto delas. Mas é difícil pois não é possível vê-las. Tenho que usar o pouco que a luz do consciente me dá para tirar laços do inconsciente. É doloroso, alguns pedaços de raízes se perdem no caminho, mas sigo trabalhando no escuro, tentando balançar um pouco menos e aumentar minha capacidade de retornar ao esplendor de estar em pé.